Essa pergunta não me deixa em paz.
Porque o mundo tem riscos reais. Mas o medo que ensinamos nem sempre corresponde a eles — e muitas vezes ultrapassa, invade, se instala.
E aí me pergunto: onde colocamos a régua?
Existe uma medida possível entre proteger e paralisar? Ou essa régua já nasce torta e atravessada pelas nossas próprias histórias, pelos medos que herdamos, pelas violências que aprendemos a antecipar — ou que já tivemos?
A janela aberta do carro
Meu filho sempre gostou de andar com a janela aberta do carro. O vento no rosto, quase como um cachorro peludo tomando o ar pra si para engolir o mundo. E eu ali, dividida.
Dizer que era perigoso por conta de outra pessoa sempre me pareceu estranho. Difícil. Quase incoerente. Outra pessoa, igual a nós, poderia fazer mal a ele. Que ideia mais brutal. E, ao mesmo tempo, brutalmente possível.
Então o que fazemos com isso?
Como ensinar cuidado sem ensinar desconfiança como regra?
Como nomear o risco sem transformar o outro em ameaça permanente?
Como não colocar nas crianças um peso que talvez seja nosso — da nossa própria neurose, das nossas tentativas de controlar o incontrolável?
O que transmitimos sem perceber
Porque há algo de desmedido nisso tudo.
Talvez o problema esteja em antecipar riscos que ainda nem chegaram e, com isso, calar uma intencionalidade legítima de criar ideias livres e ingênuas da infância.
Mas como ser livre em um mundo que nos aprisiona por todos os lados? Que dualidade.
Vivemos em um mundo atravessado por desigualdades profundas. Sabemos disso. Sentimos isso. E tentamos, à nossa maneira, sustentar alguma mudança — com a força de formigas que só sabem seguir em frente.
Mas, no meio disso, estamos criando crianças.
E talvez a pergunta não seja apenas como protegê-las do mundo. Mas como não transmitir a elas um medo que as impeça de habitá-lo.
Porque entre o cuidado e a paralisia existe um espaço sutil. E é nele que, todos os dias, a gente tenta — sem garantia nenhuma — acertar.