Hoje, duas frases ditas por amigas ficaram ecoando em mim. Estávamos em um almoço quando comentei sobre o meu desconforto em me relacionar com homens. Elas responderam quase sem pensar, cada uma à sua maneira: "Ninguém é perfeito." "Será que você não quer alguém igual a você?"

Frases simples. Cotidianas. Dessas que passam. Mas não passaram. Elas ficaram. E ficaram a ponto de me tirarem o sono.

São 3h45 da manhã e estou aqui, escrevendo, tentando entender por que essas palavras me atravessaram tanto.

Não é dúvida. É o contrário. É a certeza incômoda de que o machismo nos pega na curva — mais cedo, mais tarde, ou sempre.

Porque ambas as frases funcionam como dispositivos que nos devolvem à culpa e tiram nossas escolhas. Sem violência explícita. Sem conflito. Quase com cuidado. Mas devolvem.

"Ninguém é perfeito" parece uma tentativa de nos acalmar, de nos lembrar da condição humana. E, de fato, ninguém é. Mas o problema é tratar o machismo como defeito. Não é.

Machismo não é falha individual, não é traço de personalidade, não é algo que se resolve com paciência ou tolerância. É estrutura. Uma estrutura que atravessa corpos, molda relações, define o que pode e o que não pode ser desejado, dito, vivido. Uma estrutura que nos ensina a ceder antes mesmo de percebermos que estamos cedendo.

E então vem a segunda frase, quase como um ajuste fino: "Será que você não quer alguém igual a você?"

Não. Não quero. Não se trata de encontrar alguém igual a mim. Trata-se de não aceitar relações sustentadas por assimetrias que já conhecemos bem demais.

Querer clareza não é exigir perfeição. É recusar a naturalização da violência — mesmo quando ela aparece disfarçada de hábito, de costume, de "é assim mesmo".

Mulheres podem ser machistas?

Podem reproduzir o machismo. Mas não são elas que lucram com ele. E essa diferença não é detalhe. É estrutura.

Durante muito tempo, para existir, foi preciso aprender a dançar no compasso deles. E, ao fazer isso, muitas vezes repetimos os mesmos gestos, as mesmas lógicas, os mesmos silêncios.

Não porque escolhemos. Mas porque foi o que nos ensinaram como forma de sobrevivência.

O problema é quando isso deixa de ser reconhecido. Porque o que não é nomeado… continua operando.

O machismo nos pegou na curva de novo. Só que, desta vez, eu reconheci a armadilha.