Se relacionar amorosamente com homens heterossexuais cisgênero é, muitas vezes, uma travessia de terreno acidentado. Observo que, quanto maior o contato com estudos, leituras e reflexões críticas sobre as tramas de poder que atravessam o gênero, mais evidentes se tornam certas dinâmicas difíceis de sustentar. A ampliação da consciência não produz uma iluminação súbita do outro; produz, antes, a nitidez do que sempre esteve ali e que, por hábito, não era nomeado.
O catálogo das microviolências
Frases cotidianas, pequenas, sutis, quase inofensivas à primeira vista, atravessam o corpo como farpas:
"Você acha que eu não faço nada?"
"Então só posso ser um merda por achar isso de mim."
"Você entendeu errado."
"Que chato, fala a mesma coisa mil vezes."
"Então faz você."
Essas frases poderiam ser listadas como um catálogo de microviolências. Não como episódios isolados, mas como uma coreografia de desgaste cuidadosamente ensinada aos homens desde a infância — um script cultural do qual poucos conseguem se desviar.
A credencial do "aliado"
Há algo curioso, e perversamente cômico, na forma como muitos homens constroem para si uma credencial de "aliado feminista" baseada em lavar pratos, ir ao mercado ou cozinhar o jantar. O simples cumprimento de tarefas básicas — aquelas que sustentam a vida cotidiana de qualquer casa — transforma-se em selo de igualdade.
Como se comprar exatamente o que está na lista fosse uma façanha política. Como se o esforço de ir ao mercado, sem jamais perceber o pano de prato gasto, a vassoura velha, o lixo cheio ou o cheiro gostoso da casa, fosse prova incontestável de parceria.
A economia política do afeto
No fundo, repete-se um impasse recorrente: muitos homens apreciam viver em casas funcionais, mas resistem a assumir a responsabilidade integral pelo que essa funcionalidade exige. Quando o fazem, frequentemente surge o peso performático do provedor — a ideia de que "colocar dinheiro na casa" os absolveria de outras formas de cuidado.
A relação com o dinheiro opera, então, como engrenagem silenciosa dessas dinâmicas. Quem detém o dinheiro detém mais do que poder econômico: detém gosto, escolha, autoridade simbólica e o direito de se colocar acima da divisão de tarefas sob o argumento de que "trabalha muito".
Trata-se de uma economia política e afetiva que ultrapassa o orçamento — diz respeito a quem pode descansar, quem pode exigir, quem pode errar.
Muitas mulheres relatam uma experiência paradoxal: são reconhecidas no mundo público por sua potência intelectual, por seus deslocamentos, por suas produções — enquanto, no espaço íntimo, encontram olhares atravessados por uma expectativa de submissão silenciosa que nunca foi dita, mas que se faz sentir em cada gesto.
A travessia não é fácil. Mas nomear o que acontece — sem julgamento e sem pressa — é o primeiro passo para escolher de forma consciente como habitá-la.