Existem muitas formas de demonstrar afeto, e aprendemos essas formas antes mesmo de sermos postos à luz.
Pesquisas atuais indicam que, ainda no útero, já respondemos ao ambiente em que iremos interagir. A partir da vigésima quinta semana de gestação, o bebê reage a sons e ao toque, tanto dos genitores quanto de outros estímulos ao redor. No entanto, por volta da décima sexta semana, já é possível identificar, com precisão médica, o sexo biológico que nos designa. E, a partir dessa designação, os estímulos começam a se dividir.
É inquietante, mas é fato: falamos de forma diferente com bebês e crianças classificados como meninos ou meninas. Antes mesmo do nascimento, a onda do patriarcado já inunda nossos cérebros com dualismos. Desde então moldamos o campo perceptivo onde aquele corpo aprenderá a significar o mundo.
Antes da linguagem, há uma aderência sensível que nos coloca no mundo em interação. Não somos uma consciência que possui um corpo, somos um corpo que se abre ao mundo. O corpo já estrutura o mundo como sentido.
O script destinado ao homem
"Somos a voz do mundo. Para o mundo, não podemos demonstrar sentimentos, isso seria fraqueza. Chorar é o ápice da vulnerabilidade. Precisamos ser ouvidos a qualquer custo. Não falamos do que sentimos porque não sabemos o que sentimos. E não podemos não saber, afinal, somos a voz do mundo."
Se o masculino se organiza como monólogo de centralidade, o feminino é produzido como contrato de modulação permanente.
"Somos o Outro. Nossa voz é tolerada no privado e ainda assim, com cautela. Sente-se de pernas fechadas. Não ria alto. Não contradiga. Jamais seja direta. Dê voltas. Suavize. Seja interessante, mas sem intimidar. Nunca descanse."
Chamaram isso de feminilidade. Mas trata-se da natureza desnaturalizada de não existir. E sentir poderia ser sinônimo de existir.
O circuito do sentir
No dicionário, sentir é perceber por meio dos sentidos. Ter consciência. Sensibilidade física ou moral. Como se fosse simples assim.
Mas perceber o mundo é uma coisa. Perceber-se no mundo é outra. E perceber-se em relação com o outro exige coragem.
Merleau-Ponty, em sua Fenomenologia das Percepções, nos mostra que a percepção não é estímulo + resposta — e sim a organização significativa do que está entre. O corpo é condição de possibilidade da experiência.
Passa um vento. Eu me arrepio. Sinto frio. Nomeio o frio. Coloco o casaco. Me aqueço.
Estímulo → Sensação → Elaboração → Palavra → Ação → Consequência
O circuito parece simples. Mas entre o arrepio e o casaco existe uma escolha: reconhecer ou negar o que o corpo anuncia.
O patriarcado regula o campo perceptivo
Homens negros foram enquadrados antes mesmo de aprenderem a se enquadrar. A eles raramente foi concedido o tempo do sentir. Foram convocados à sobrevivência. E sobreviver não costuma incluir pausa.
As mulheres? Interseccionadas até a exaustão. Gênero, classe, raça, maternidade, cuidado, trabalho. Seguir em frente vira virtude. Pausar vira luxo.
O patriarcado regula não apenas comportamentos. Ele regula o campo perceptivo. Ele autoriza ou desautoriza certos circuitos do sentir.
Então a pergunta muda: Quem tem direito à pausa para sentir?
Porque sem pausa não há percepção do sentir. Sem percepção não há escolha. Sem escolha não há sujeito — há função.
O sentir negado não evapora. Ele retorna. E quando retorna, retorna como violência pessoal e social.
Sentir é resistência
Se o patriarcado regula o campo perceptivo, então sentir torna-se resistência. Pausar torna-se insubordinação. Nomear o que o corpo já sabe torna-se gesto radical.
Porque existir não é apenas funcionar. É sustentar a própria experiência. A coragem de permanecer no intervalo. A disposição de sustentar perguntas antes de buscar respostas.
Quem sente, existe. Quem pausa, escolhe. E quem escolhe, se torna sujeito.
E enquanto houver quem se disponha a habitar o espaço entre o vento e o casaco — entre o estímulo e a palavra — ainda haverá possibilidade de mundo.