Pensei nisso conversando com uma amiga na fila da pipoca, antes de assistir ao Diabo Veste Prada. Éramos um grupo de 5 mulheres potentes, cada uma carregando suas próprias construções — questões singulares, mas com um fundo surpreendentemente parecido. E o assunto que apareceu primeiro, inevitavelmente, foi se relacionar. Porque estamos exaustas de pensar, mediar e carregar esses encontros. Seja com amigos, filhos, marido ou colegas de trabalho — vivemos em relação o tempo todo, e pensar sobre isso virou peso, dúvida e conflito.

A questão me tomou o corpo. Fui tentar entender o que nos difere e por que, sendo estruturalmente tão iguais, se relacionar pode custar tanto.

Pensando que do ponto de vista molecular e atômico, todos os seres humanos compartilham a mesma "receita" química. 99,9% da sequência de DNA é idêntica entre todos nós. Aquele 0,1% restante é o responsável por tudo o que nos diferencia: cor de pele, cabelo, altura. Somos estruturalmente a mesma coisa. Todos da mesma espécie — e essa espécie tem como necessidade biológica, psicológica e evolutiva estar em relação. Nossa sobrevivência e bem-estar dependem de conexões significativas.

Aí começa a piada…

Nossos corpos são resultado da interação constante entre Natureza (genes) e Criação (ambiente e cultura). O meio onde você vive pode ligar ou desligar genes. O que você come altera seu desenvolvimento. O idioma que você fala molda a estrutura do seu pensamento. Os rituais e costumes que você herda criam uma identidade que é só sua — e de todo mundo ao mesmo tempo.

O que podemos levantar até aqui é que somos iguais, mas completamente diferentes. O que vivemos e o que nos afeta nos tornam indivíduos únicos, com intersecções e variações que nenhuma equação resolve. Por esse motivo, cada corpo se estrutura de forma particular.

E nessa maluquice de "quem sou eu na fila do pão", já lotada de intersecções, a gente ainda resolve acreditar que juntos seremos melhores.

Poderíamos trazer para a conversa o Capitalismo, a religião, a origem do casamento com a proibição do incesto e a organização de capital na família. Poderíamos falar também de binarismo de gênero, papéis sociais, obrigações estruturais — temas importantíssimos e necessários. Mas também podemos voltar para cá e tentar entender por que precisamos tanto nos enxergar através das relações. Se pisam no meu pé, como reajo? Se ninguém o fizer, como saberei o quanto pode doer? Só em relação conseguimos dançar uma música.

Daí, voltamos ao ponto de partida: quais são os subterfúgios — as artimanhas, os esconderijos — que tramamos para despistar incômodos profundos, desencontros reais e abismos relacionais com nossas escolhas de parcerias amorosas?


Qual o tamanho do seu saco?

A gente escolhe ficar na superfície porque o saco é fundo e mexer ali dói e cansa muito. Mexe em todas as estruturas interseccionais. Dá-lhe terapia, né? O que é meu, eu carrego. Mas o que não for, quero me desfazer, como sacos de areia presos a hastes dos barcos. Só nos dão peso e culpa por querer seguir mais leves, nos tolindo em ir rumo ao que é só nosso.

Cansa explicar, cansa ter que mediar as relações cotidianas. Cansa abrir mão. Deixando o silêncio de dias sufocar com o não dito. Tudo funcionando muito bem como cortina de fumaça para não encarar o abismo entre o que sentimos e o que conseguimos dizer porque precisamos ser hábeis para não magoar tentando dar voz a nossa nova forma.

Você me tolera ou quer de fato que eu exista?
Me vê ou tenta a todo custo se ver através de mim?

Deve ser difícil imaginar que te vejo como eu te vejo. Mas tenha a certeza de que é ainda mais difícil me ver e me colocar como eu quero ser vista, sem o olhar opressor da história. Não podem escrever a nossa história sempre. Temos o mesmo gene e apenas 1% me faz ser diferente, lembram? Não me aprisione no seu 1%, eu quero gastar o meu!

Não me desperte à sua maneira, seu despertador não é o meu, nossos tempos são outros. Não me espere nem vá à frente; seu tempo não é o meu, lembre-se disso. Siga o compasso com harmonia, será que é capaz? Não tem vencedor. Não me julgue pela sua régua, não me tolere, não me enforme no meu molde. Me veja.

Somos metamórficos e estamos sempre em vias de deixar de ser o que éramos. E é exatamente por isso que estar em relação exige uma coragem específica: a de estar preparada a não ser nada a qualquer momento. A de suportar o intervalo entre uma forma e outra. Na espera.

Essa é a condição humana. Como bem lembra Ailton Krenak, quando a terra não suportar mais a agressão, ela "comerá" as pessoas, nos devolvendo ao ciclo natural como "estrume". Somos passageiros. E talvez a relação que dura seja aquela que não tenta segurar o que já está se transformando.


Então existe uma arquitetura para o amor?

Para mim, até aqui, diria que sim. Construída de micro-escolhas cotidianas: a escolha de olhar para o outro e enxergar com o corpo. Se interessar de verdade. De poder se acompanhar mesmo estando acompanhada, de suportar não ser o espelho que confirma quem você quer ser e mesmo assim permanecer. Compreender o que precisa ser transformado, ter coragem para chegar no fundo do seu próprio saco de dor e retornar com uma nesga do novo.

Essa arquitetura não se atreve a ser permanente, nunca se consolida de vez, porque é feita de decisões diárias.

Se a gente só consegue se conhecer em relação, a que dura é aquela que te permite ser o que você ainda não sabe que é. Não a que te mantém confortável no que você já foi.

Naquela fila de pipoca, entre mulheres que carregam mundos, percebi que estamos todas no mesmo barco, apenas remando à procura de nós mesmas.